Miséria e alegria de “Capitães de Areia” incomodou governo brasileiro

Um dos livros que retratava a realidade das ruas de Salvador na Bahia, Capitães de Areia, procura apresentar a vida difícil, mas com suas alegrias, de crianças que viviam nas ruas.

Na época em que foi lançado o livro teve uma censura incisiva do governo que em uma fogueira queimou os exemplares considerados simpatizantes do comunismo. Junto com o livro havia outras obras literárias (mais de 1,8 mil) sendo queimadas na frente dos membros da comissão de buscas de apreensão de livros. 90% dos livros queimados na fogueira eram de Jorge Amado, jovem escritor baiano que tratava temas sociais em suas obras.

O regime de governo do país na época não admitiu a obra literária que representava de forma vigorosa uma crítica à desigualdade social e à situação de abandono dos menores de idade nas ruas de Salvador. A história procurou reverter a imagem que os meninos de rua tinham como malandros e delinquentes para pessoas socialmente desfavorecidas, mas que possuíam os seus momentos de alegria como se fossem heróis.

A tentativa do governo de denegrir a obra não teve sucesso nenhum, Capitães de Areia se tornou um clássico nacional 80 anos depois de seu lançamento. Uma história escrita no passado que continua criticando a realidade do presente.

A falta de suporte para as crianças que viviam em uma situação humilhante foi denunciada através da obra literária contra um governo que não fazia o necessário para melhorar as condições de vida da marginalização de jovens.

Apesar dos avanços que aconteceram no país, ainda hoje existem pessoas sem garantias e direitos básicos que têm uma vida semelhante a dos jovens retratados na história de Jorge Amado. De acordo com um levantamento realizado pela ONG Projeto Axé, aproximadamente 15 mil pessoas vivem nas ruas da capital baiana, entre eles 3,5 mil menores de 25 anos.

A romantização dos meninos de rua que são descritos como heróis por Jorge Amado é uma maneira de dizer que ninguém vive apenas um drama ainda que viva na miséria, até mesmo quem está nas ruas tem os seus momentos de alegria.